Gerais sobre Natureza/Ambiente

Cultura à deriva

(texto)

Chego de uma rápida viagem a Portugal e ao sul da França. Nas cidades visitadas, chamou-me atenção o investimento que os governos locais e governo federal fazem na área cultural. Novos espaços expositivos, ampliação de teatros e criação de museus são algumas das ações que, associadas a um eficiente planejamento urbano e econômico, vem colaborando com o crescimento do turismo e com a geração de empregos e riqueza.

Infelizmente, a realidade brasileira caminha na contramão da tendência mundial de considerar a cultura como investimento e não como despesa. Um grande número de empresas estatais diminuiu ou cortou os incentivos a projetos culturais. Mais alarmante é a recente notícia sobre a intenção do governo federal de encerrar as atividades da Caixa Cultural Rio, no centro da cidade. Minha memória, nesse caso, retorna a 2006 quando se festejou a inauguração de um espaço de galerias construídas com excelência, que obedecem às mais rigorosas exigências para expor coleções nacionais e internacionais, como as obras de grandes pintores acadêmicos e modernistas, como Antônio Parreiras, Tomas Ender, Di Cavalcanti, Portinari, Tomie Otake, Adriano Aquino, Rubem Grilo, além de muitos outros que já estiveram em sua programação. Além disso, um teatro de arena com capacidade 226 lugares, dois cinemas, uma livraria e um espaço para oficinas pedagógicas de arte-educação, que beneficiam prioritariamente estudantes das redes públicas de ensino. São 6.000 m² no coração do centro do Rio de Janeiro. A transferência para um local próximo – que não apresenta as mesmas condições técnicas e espaciais, nem a facilidade de acesso ao público visitante – não pode representar uma justificativa para tal decisão.

Soma-se a esta notícia outra experiência recente, também no centro do Rio de Janeiro. A reunião do mês de maio do Conselho Empresarial de Assuntos Culturais da Associação Comercial do Rio de Janeiro, o qual presido, aconteceu no Museu do Itamaraty por convite do Embaixador Eduardo Prisco. Trata-se de um dos mais importantes “Museu Casa” do Brasil. O belo Palácio do Itamaraty – obra arquitetônica que guarda em suas paredes a memória de importantes acontecimentos dos períodos Imperial e Republicano – guarda objetos de inestimável valor históricos e artísticos, como a pintura a óleo de Jean Baptiste Debret, único retrato de d. Pedro II ainda bebê; além de pinturas, fotografias e documentos que registram a História da Diplomacia Brasileira e de seu grande chanceler, o Barão do Rio Branco. Foi uma reunião memorável pela beleza do local e hospitalidade do anfitrião. Porém, foi também uma triste experiência pela percepção do precário estado de conservação da edificação, que apresenta infiltrações em quase todos os ambientes, que danificam as paredes e os magníficos pisos de madeira. Mais lamentável é constatar que esse não é um caso isolado na nossa cidade e nosso país, pois sabemos que muitas outras instituições culturais ainda sobrevivem graças ao bravo cuidado dos que ali trabalham na salvaguarda do patrimônio.

Solitária, restou-me uma única boa nova – que por pouco se perde no quadro de tantos lamentos. É a auspiciosa notícia da inauguração do Instituto Casa Roberto Marinho, onde residiu o jornalista entre 1943 e 2003. Trouxe-me a lembrança de muitos jantares por ocasião da inauguração de alguma exposição que o Dr. Roberto fazia questão de comemorar.

Como cidadã e como Presidente do Conselho Empresarial de Assuntos Culturais da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), não posso me omitir diante da triste realidade da cena cultural brasileira. Em nome deste mesmo Conselho, manifesto a posição da ACRJ contrária ao fechamento das atividades da Caixa Cultural Rio, espaço que foi construído com o dinheiro público, resultado dos impostos pagos por uma população que merece respeito e tem o direito de usufruir desse bem. Uma cidade como a nossa, que já passa por tantos problemas sociais, não merece que um espaço de cultura e de lazer de tal importância se feche com a desculpa de um aluguel acima da prática do mercado, muito menos que patrimônios históricos, como o Palácio do Itamaraty, corram o risco encerrar suas atividades por falta de conservação adequada.

Os governos e as empresas precisam entender que investir em cultura é lucrativo e que os resultados educativos e culturais justificam qualquer “alto valor de aluguel” ou “alto valor de orçamento” para preservar instituições. Não podemos ficar de braços cruzados. Todos temos que manifestar nossa contrariedade sobre as decisões que põem em risco o valor cultural do nosso Brasil.

Vera L. Bottrel Tostes
Museóloga, Historiadora e Presidente do Conselho de Assuntos Culturais da ACRJ

(texto)
Fonte/Autor do Conteúdo Postado

Comente com seu Facebook

Deixe um Comentário