Meio Ambiente

‘Esse estrago vai ficar para sempre’, diz cacique da aldeia – 04/02/2018 – Ambiente

(texto)

Em 1996, o cacique Osvaldo Wauru foi enviado à região com a missão de conter o avanço dos garimpeiros brancos daí o nome da aldeia, Posto de Vigilância (PV).

 

Hoje com 70 anos, caminha a passos lentos, tem as costas arqueadas e quase não exerce poder de mando. No último ano ano, viu a sua aldeia ser engolida por não indígenas, que destruíram quase todo o entorno, tomaram casas e o prédio da escola e aliciaram o seu filho, que hoje vende bebida alcoólica e recruta guerreiros para proteger o garimpo.

A seguir, o depoimento à Folha.


 

“Quando cheguei aqui, em 1996, estava tranquilo, sem destruição. Implantamos aqui o Posto de Vigilância, esse é o nome. No tempo, a Funai tinha poder para expulsar. Fiquei tranquilo, sem ameaça, destruição.

Depois, em 2002, começou o garimpo. Não entraram logo não, não, eles vieram de lá para cá, na beira da nossa área [Floresta Nacional do Crepori]. Avisei a Funai, eles vieram aqui, e a área ficou livre por um tempo.

Depois, veio outro garimpeiro branco e tiramos, fiquei livre de novo. Aí vieram de novo, mas desta vez era um monte de garimpeiro trazendo máquinas, PC [escavadeiras], essas coisas. Aí a gente mesmo, o pessoal que mora aí embaixo, fez acordo com eles e começou essa invasão. Começaram com 20 barracos, máquinas e PCs.

No ano passado, começaram a entrar aqui na aldeia. O próprio pessoal convidando os brancos para entrar aqui dentro. Em um ano, fizeram todo o estrago aqui. Eram 15, 20 PCs trabalhando aí direto.

Aí começou bebida alcoólica, droga, boate. O meu próprio filho mais velho, João, colocou bebida alcoólica dentro da casa dele, foi assim. Droga, bebida. A boate está bem ali. Eles pegam maconha igual cigarro e fumam aqui.

Antes do Natal, chegaram 40 grades de cerveja, 5 grades de cachaça 51 e diversas bebidas alcoólicas. Aí, encheram o freezer do meu filho e pronto. Brancos e índios bebendo. Quando cheguei aqui, de Jacareacanga, estava todo mundo bêbado, principalmente esses guerreiros que ele está usando.

O meu filho manda criança de 8 anos beber. A criança ficou bêbada. Ele deveria se desculpar com todo mundo.

A caça se afastou daqui, por causa da máquina, da sujeira. A caça era muito fácil aqui, porco, veado, anta. Peixe, tem ainda só num igarapé. Mas os peixes estão doentes, cheios de mercúrio. Foi assim.

Os garimpeiros me arrumavam dinheiro, aí eu pedia ao avião para trazer comida e distribuía para comunidade, cada família recebia. Agora, cada um [dos mundurucus] quer fazer esse negócio aí [negociar com os garimpeiros].

Só aqui dentro da aldeia PV, tem na base de uns 60 garimpeiros. Agora, não sei quantos garimpeiros têm aqui para baixo, para cima. No garimpo Água Branca [a cerca de 20 km], tem também.

Eles não me pedem autorização. Uns falam: ‘Eu que mando aqui’. Os voos de avião são por conta deles mesmo. Antes, eu pedia para eles que pedissem autorização para trazer voo. Agora, não. Tem uns dez aviões por dia.

Entraram na escola sem a minha autorização para eles fazerem suas coisas lá. Errado. Ontem, quando entrei, vi que tinha alguma coisa escondida lá.

Eu também tenho um par de máquinas [para garimpo]. Coloquei um garimpeiro [não indígena] para trabalhar para mim, o Eduardo. Mas garimpo tinha de ser com mundurucu e sem PC, só isso.

Melhor é sem PC. O tatuzão [motor com mangueira d’água] não estraga a natureza. Fica até pedaço de mata. Agora, o PC destrói tudo. Tudo aqui era mato. O PC acabou com o mato, com o açaí, com cajueiro, com o rio, acabou com tudo.

A Funai veio aqui pela última vez neste mês. Eles conhecem isso aqui. Mas nunca vieram Polícia Federal, Ibama.

Eu falei para eles ajeitarem quando terminarem isso aí. Tinha um bocado de plantação. Pedi também pro rio ficar mais aberto, não fizeram. Esse estrago vai ficar para sempre assim.”

(texto)
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