Meio Ambiente

‘Pesca de DNA’ na Amazônia ajuda a criar receita para etanol do futuro – 11/03/2018 – Reinaldo José Lopes

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Para quem gosta de uma boa pescaria, as águas da Amazônia abrigam coisas muito mais interessantes do que pirarucus e tucunarés. Genes, por exemplo —fragmentos de DNA vindos de micro-organismos aquáticos que a ciência ainda nem conseguiu identificar direito. Mesmo assim, eles podem acabar se revelando uma mão na roda para a biotecnologia brasileira.

Uma dessas histórias verídicas de pescador está contada em artigo que saiu recentemente na revista científica BBA Proteins and Proteomics.

Tudo começou no lago Poraquê (aliás, nome de outro peixe amazônico, famoso por aplicar descargas elétricas em suas presas), na região do alto Solimões. Foi lá que pesquisadores coordenados por Mario Tyago Murakami, do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, e Flavio Henrique-Silva, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), coletaram amostras de água que serviriam de base para seu trabalho de metagenômica.

Calma, eu já explico o palavrão. Genômica, como você talvez já saiba, é a ciência que estuda os genomas, ou seja, o conjunto do DNA de diferentes seres vivos. O prefixo “meta-”, por sua vez, refere-se à análise de múltiplos genomas que aparecem numa amostra obtida de determinado ambiente, sem que os cientistas necessariamente saibam de qual espécie está vindo toda aquela informação genética.

A abordagem metagenômica é interessante, entre outras coisas, como uma primeira olhada em ecossistemas relativamente pouco conhecidos, ajudando os pesquisadores a ter uma visão geral sobre a diversidade de seres vivos por ali.

E ela também quebra outro tremendo galho, ligado à dificuldade de cultivar a maioria dos micróbios do planeta em laboratório. Ao pescar diretamente o DNA, deixando de lado a dor de cabeça de tentar criar uma fazendinha de bactérias ou leveduras no tubo de ensaio, os cientistas já conseguem ter uma ideia do que aqueles organismos são capazes de fazer mesmo sem examiná-los diretamente.

Feita a coleta de amostras, o passo seguinte é usar aparelhos para sequenciar todo o DNA obtido –ou seja, faz-se uma leitura de todas as letras químicas de DNA presentes na amostragem. Depois, essa sopa de letrinhas genômica é comparada com imensas bibliotecas de genes já conhecidos: trechos de DNA estudados antes e que sabidamente contêm a receita para a produção de moléculas com determinadas funções.

No caso da pesquisa brasileira, a análise comparativa permitiu a descoberta de um gene que talvez se torne bastante útil para as usinas de álcool do futuro. O novo gene contém a receita para a produção de uma forma de beta-glucosidase –uma molécula que participa da transformação da matéria vegetal em glicose (açúcar).

As beta-glucosidases são enzimas, ou seja, tesouras bioquímicas. Elas ajudam a picotar as compridas moléculas de celulose das plantas –presentes no bagaço de cana ou num pedaço de madeira, digamos– e transformá-las em glicose.

Ao ser fermentada, a glicose vira o etanol (álcool) que movimenta o seu carro. As propriedades da nova enzima parecem promissoras para uso industrial: junto com um coquetel de outras moléculas, elas têm potencial para facilitar a produção do etanol de segunda geração, que aproveita bem mais sua matéria-prima vegetal.

Muitas outras coisas desse tipo podem estar escondidas na biodiversidade da Amazônia. Você ainda acha que o único jeito de ganhar dinheiro por lá é com madeira, boi e soja?

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