Meio Ambiente

Ursos polares estão bem, dizem céticos das mudanças climáticas – 11/04/2018 – Ambiente

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Os ursos polares são peludos, têm narizes de botão, e dependem da camada de gelo do Ártico para sua sobrevivência. Além disso, há muito se tornaram animais emblemáticos nas discussões sobre a mudança do clima.

Mas, em um momento no qual as conclusões científicas sobre o clima vêm sendo contestadas nos níveis mais elevados do governo dos Estados Unidos, os céticos quanto à mudança do clima decidiram apelar aos carismáticos ursos polares para seus fins, explorando sua robustez simbólica para colocar em dúvida a ameaça do aquecimento global.

As provas científicas de que o lar dos ursos polares no Ártico está se aquecendo em ritmo duas vezes mais rápido que o restante do planeta são esmagadoras, e podem ser verificadas em relatórios como a Avaliação Nacional do Clima americana, compilada por 13 agências do governo federal dos Estados Unidos.

Em algumas partes do Ártico, cientistas documentaram declínios na população de ursos polares e sinais perturbadores de deterioração física, ligados à redução da camada de gelo no oceano Ártico. E, no ano passado, o governo Obama definiu a mudança no clima causada por atividades humanas como a maior ameaça à existência continuada da espécie.

Mas, na opinião dos céticos quanto à mudança climática, os ursos polares vão muito bem.

Em sites como Watts Up With That, Climate Depot e outros veículos, blogueiros insistem em que o recuo da camada de gelo no Ártico é parte de um ciclo de aquecimento natural não relacionado a atividades humanas. Eles dizem que as previsões sobre uma queda devastadora nas populações de ursos polares não se concretizaram.

Muitos cientistas dizem que os céticos das mudanças climáticas se apoderaram da figura dos ursos polares. 

Em artigo publicado na terça-feira (10) pela revista acadêmica BioScience, 14 renomados pesquisadores argumentam que os blogs negacionistas, alguns deles com elevadas taxas de leitura, estão usando os ursos para espalhar desinformações sobre as causas e consequências do aquecimento global.

Os pesquisadores apontaram especificamente para o blog Polar Bear Science, operado pela zoóloga canadense Susan Crockford, como fonte primária de informações dúbias sobre a situação dos ursos polares. Cerca de 80% dos sites céticos quanto à mudança do clima que os pesquisadores estudaram apontam para o blog de Crockford como fonte primária de informações, eles afirmaram.

A publicação do artigo deve intensificar o furor dos sites que duvidam da mudança no clima, surgida quatro meses atrás quando o site da BioScience postou uma versão inicial do artigo.

A reação foi rápida e feroz.

Um post no blog Climate Audit, popular entre os céticos quanto à mudança do clima, definiu o artigo como texto de ataque. A Fundação de Políticas quanto ao Aquecimento Global, instituto de pesquisa favorável aos combustíveis fósseis sediado no Reino Unido, que publicou estudos de autoria de Crockford, reagiu com um artigo cuja manchete era “14 valentões do clima atacam Susan Crockford por dizer a verdade sobre os ursos polares”.

Crockford comentou no Twitter que o artigo era o equivalente a um estupro acadêmico, e exigiu que fosse retirado.

Os autores do artigo também sofreram ataques. As universidades de três dos autores receberam pedidos de acesso à correspondência deles, nos termos da lei de liberdade de informação; pelo menos um dos pedidos foi feito por Crockford. (Dois dos pedidos foram rejeitados, e o terceiro está sendo revisado pela Universidade da Califórnia em Davis.)

Além disso, Hans LaBohm, editor do blog ClimateGate.nl, exigiu que o ecologista Jeffrey Harvey, principal autor do artigo, fosse repreendido por conduta indigna.

Harvey disse que o artigo surgiu por conta da crescente frustração que ele e outros cientistas sentem quando à difusão de falsas informações, a desconsideração a provas estabelecidas, e a perseguição a pesquisadores, que, em alguns casos, se tornaram parte do debate público sobre a mudança climática.

Ao contestar as constatações científicas sobre os ursos polares, os céticos do clima esperam instilar dúvidas sobre a ciência climática como um todo, disse Harvey. “A cada vez que eles fazem uma afirmação absurda na mídia e não respondemos a ela, é como um jogo de futebol no qual tivéssemos deixado que eles marcassem com o gol aberto”, ele disse.

Michael Oppenheimer, professor de geociência e assuntos internacionais na Escola Woodrow Wilson, Universidade da Pensilvânia, que não se participou do artigo, disse que não o surpreendia que cientistas se unam para combater a negação da mudança no clima.

“Alguns cientistas do clima estão simplesmente cansados de ser alvos de ataque”, disse Oppenheimer.

Ele acrescentou que os cientistas têm o direito de questionar publicamente o saber alheio, como fizeram no caso de Crockford. “Se pessoas fazem afirmações contrárias ao entendimento científico, é perfeitamente apropriado que elas sejam questionadas quanto a isso”, ele disse, “porque, na era atual, quando existem tantas fontes de informações, às vezes é difícil identificar quem é o verdadeiro especialista”.

Ainda que muitos sites céticos quanto à mudança do clima aproveitem informações sobre ursos polares postadas no blog de Crockford, o artigo aponta que ela não tem conhecimento demonstrado sobre a ciência do clima, ou sobre os efeitos do clima nos ursos polares.

As credenciais de muitos dos autores do artigo publicado pela BioScience incluem longas listas de trabalhos veiculados em publicações acadêmicas e de estudos sobre esse tema.

Crockford é professora adjunta de antropologia na Universidade de Victoria, na Columbia Britânica, no Canadá. Seus campos de estudo incluem evolução e paleologia. Ela publicou alguns artigos sobre ursos polares em revistas acadêmicas. Também publicou artigos e reportagens que não passaram por revisão acadêmica, como os veiculados pela Fundação de Políticas quanto ao Aquecimento Global.

Scott Collins, editor chefe da BioScience, disse que a publicação considerou com seriedade a exigência de Crockford de que o artigo fosse retirado, mas afirmou não existirem motivos para isso.

A versão final, disse Collins, inclui correções que alteram duas sentenças ligeiramente, em um dos casos tornando mais precisa uma afirmação sobre as credenciais de Crockford, de forma a especificar que sua falta de conhecimento especializado envolve os efeitos do gelo marinho sobre a dinâmica populacional dos ursos polares.

Crockford se recusou a ser entrevistada por telefone ou a responder perguntas encaminhadas por escrito. Mas afirmou em email que “esse artigo é uma resposta petulante à minha constatação de que o número de ursos polares não despencou como previsto, quando condições de gelo marinho semelhantes às previstas para a metade do século se manifestaram inesperadamente, em 2007. O artigo não só está desprovido de qualquer ciência mas do decoro profissional que outras publicações científicas requerem”.

Steven Armstrup, um dos autores do artigo e cientista chefe da Polar Bears International, uma organização conservacionista, disse que Crockford faz referência frequente a um relatório de 2007 que ele produziu quando era diretor de um projeto do governo federal americano sobre ursos polares, no Alasca.

O relatório projetava que, se a alta da temperatura mundial não fosse controlada, a população total de ursos polares poderia se reduzir em dois terços até a metade do século.

Àquela altura, preveem modelos climáticos, a camada de gelo do oceano Ártico em setembro poderia se reduzir a menos de um milhão de quilômetros quadrados. Cientistas estimaram que, nos séculos 19 e 20, a camada de gelo do Ártico tinha em média oito milhões de quilômetros quadrados de área, em setembro.

Mas Crockford muitas vezes afirma em seu blog que a área da camada de gelo já se reduziu ao total projetado para a metade do século, e que a população de ursos polares não caiu em dois terços.

Contudo, Armstrup afirma que, de acordo com o National Snow and Ice Data Center, que compila estatísticas sobre gelo e neve nos Estados Unidos, a área coberta por gelo no oceano Ártico foi de em média 4,5 milhões de quilômetros quadrados, entre 2007 e 2017, nada próxima do total projetado para a metade do século.

“Afirmar que já deveríamos ter visto esses declínios agora, quando não estamos nem perto da metade do século, é absurdo”, ele disse.

A visão científica dominante é a de que o número de ursos polares vai cair dramaticamente se a camada de gelo do Ártico desaparecer, porque os ursos usam o gelo como plataforma para caçar focas.

Estudos constataram mudanças perturbadoras na condição física, tamanho, reprodução e índices de sobrevivência dos ursos polares, e algumas dessas mudanças foram vinculadas ao recuo da camada de gelo e ao aumento no número de dias sem neve na região.

Das 19 subpopulações de ursos polares do Círculo Polar Ártico, três demonstraram declínios substanciais, entre as quais a dos ursos do mar de Beaufort Meridional, na costa do Alasca, e da baía de West Hudson, no Canadá.

Uma subpopulação registra alta no número de espécimes, e os cientistas pouco ou nada sabem sobre nove das demais, que vivem ou em território russo ou em locais tão remotos que não há recursos para pesquisa.

Os autores do estudo enfatizaram que os blogs dos céticos climáticos tendem a se concentrar em dados isolados ou a enfatizar brechas no conhecimento científico.

Andrew Derocher, professor de biologia na Universidade de Alberta que estuda ursos polares há mais de 30 anos e não é um dos autores do artigo, disse que, em sua opinião, os céticos estão desconsiderando completamente o quadro mais amplo. A questão pode ser resumida com muita simplicidade: ursos polares precisam da camada de gelo polar.

“É simplesmente uma questão de perda de habitat”, disse Derocher. “Nada mais complicado que isso.”

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